agosto, 2022

Veia Bailarina

Por Anna Cláudia Passani Ferreira

A caminho do centro cirúrgico, a maca atravessa corredores gelados, porém o frio dentro de mim não tem a ver com a temperatura do dia. Não me importa o gelo, surpreendente para um hospital com a qualidade de primeiro mundo. Entre o apartamento e a mesa de operações é um longo caminho. Quando criança, nas aulas de Educação Física, saltávamos de uma altura de cinco metros para uma lona sustentada pelos mais fortes da turma. Quem não saltasse levava suspensão, mantida até o dia em que criasse coragem para o salto. Perder muitas aulas significava reprovação no final do ano. Educação Física era obrigatória. O voo entre a viga e a lona era vagaroso, perdia-se o fôlego. Aquele espaço curto-longo sempre me intrigou. Ao olhar outros saltadores, via que tudo se resolvia em segundos. Por que demorava tanto comigo? Ou todos tinham esta sensação? Um dos primeiros mistérios do tempo para mim. A mesma ânsia para atingir a lona, sinto agora, querendo entrar logo no centro, ser anestesiado, adormecer. Desafio que me anima, sem medo de morrer. Morrer dormindo.

Conto a possibilidade de vida por metros. Não há dor, indisposição, náusea, eu podia ter caminhado do apartamento, batendo um papo. Por que devo enfrentar esta cirurgia brutal? Por que de repente o mundo virou de ponta cabeça? Os efeitos do Dormonide são tênues, o pré-anestésico não funcionou como devia. Garantiram que era tiro e queda, dormiria em cinco minutos. Fiquei desperto, curioso e com medo. A sala de cirurgia. Homens de branco, luzes. Não quero olhar para os instrumentos. Nem sei onde estão. Como será a cirurgia? Devia ter perguntado. Atordoado, percebo a movimentação em torno. Tudo muito rápido. Para eles é apenas mais um paciente? Ou cada um que entra aqui transporta consigo a tensão, contagiando o ambiente? Começo a penetrar numa nuvem. Um rosto moreno, um sorriso brilhante, uma voz que me diz: “Sou Eunice, a instrumentadora “. Salto da viga para o escuro absoluto.

 

Sete meses antes

(Ignácio de Loyola Brandão. Veia Bailarina. 1997).

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Outro dia, escrevi a respeito da relação entre a medicina e as narrativas literárias, considerando o desdobramento infinito de diálogos entre pessoas que se necessitam, que tanta contribuição pode trazer à prática médica humanizada. Lá, deixei dicas para leituras que contemplam essa relação. Uma delas, é essa, da qual trago os trechos acima.

Agora, convido você a continuar lendo a narrativa de Ignácio de Loyola Brandão, da obra Veia Bailarina. De forma poética, suave, delicada, bem-humorada e, por vezes, sarcástica, o escritor apresenta as angústias, a dor, as perdas de cada dia de um paciente (de todos nós) diante da efemeridade da vida. 

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