agosto, 2022

MEDICINA E NARRATIVA(S) LITERÁRIA(S)

Por Anna Cláudia Passani Ferreira

Ler, se lermos para valer, fere. Arranca nacos do espírito, agita a sensibilidade e desloca os pensamentos. Essas marcas nunca cicatrizam por completo. A melhor forma de tratá-las é transformá-las em novos textos, que geram novas leituras, em um desdobramento infinito de escritores e de leitores que dialogam e se misturam.
 (José Castello, em As feridas de um leitor)

 

São infinitas as reflexões a que o escritor José Castello, no fragmento acima, da obra As feridas de um leitor, nos remete. Uma delas está ligada, diretamente,  à relação médico-paciente, em seu desdobramento infinito de diálogos entre pessoas que se necessitam, e à Medicina Baseada em Narrativa, que tantas contribuições podem trazer à prática médica humanizada.

As escolas médicas, no Brasil, têm atribuição legal de formar um profissional generalista, humanista, crítico e reflexivo. Além de diagnosticar e tratar doenças, o médico deve estabelecer empatia com as pessoas e seus processos de adoecimento, saber comunicar-se de forma ética, manter-se atualizado e ainda cuidar de sua própria saúde física e mental. Essas são habilidades e competências que vão muito além do extenso e intenso conteúdo biomédico, também necessário aos currículos de Medicina. E aqui entra o poder da literatura de ficção. Além disso, pesquisadores discutem o papel da narrativa em Medicina, tratando-a como ferramenta fundamental para garantir a competência necessária ao levantamento das hipóteses diagnósticas a partir da história da doença contada pelo paciente. Iniciativas nesse sentido têm surgido, como, por exemplo, no projeto Literatura e Medicina, na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro; e a disciplina Literatura, Narrativa e Medicina, oferecida em 2015, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, em conjunto com a Faculdade de Medicina da mesma universidade.

No mundo, diversas universidades discutem e incluem em seus currículos temas de literatura para a formação humanista do médico. Há 20 anos, um terço das escolas médicas norte-americanas inclui o estudo de textos literários em seu currículo, desenvolvendo competências clínicas difíceis de ensinar, como habilidades de observação e interpretação, imaginação clínica, facilidade de expressão escrita e falada, autoconhecimento, entre outras competências. O King’s College of London, que tem uma das maiores e mais antigas escolas de Medicina do mundo, possui um departamento voltado às questões de Literatura e Medicina, oferecendo cursos de pós-graduação nessa área. Fora da academia, o programa Literature & Medicine: humanities at the heart of health care, do Massachusetts Foundation for Humanities and Public Policy é voltado para a humanização de profissionais da Saúde e empregado com sucesso em hospitais norte-americanos, dando a eles a oportunidade de refletir sobre seu papel como pessoa e cuidador de saúde, com benefícios comprovados para trabalhadores e pacientes.

Dessas informações/reflexões, depreende-se percepção e aprendizado de aspectos, como empatia, perseverança, paciência, princípios éticos da Medicina, humanização da prática profissional do médico, importância do exame clínico e da relação médico-paciente, dentre outros. Tais resultados estão de acordo com aqueles publicados na literatura especializada.

É notório que Medicina e Literatura partilham um território comum. Ambas lidam com a condição humana, a dor, a doença, a morte, bem como a figura do médico, que têm sido temas de muitas e importantes obras literárias . De outro lado, não raro, escritores demonstram uma sensibilidade especial para entender a relação médico-paciente, o que pode ser muito útil para médicos e estudantes de medicina. Finalmente, ambas lidam com a palavra: no caso da medicina, a palavra é um instrumento terapêutico; no caso da literatura, um instrumento de criação estética. Mas, interessantes paralelos podem ser estabelecidos entre estes diferentes usos da palavra. A inter-relação entre Medicina e Literatura é um dos aspectos principais das chamadas Humanidades Médicas, que vêm sendo introduzidas nos currículos de várias escolas médicas.

 É fundamental reconhecer, interpretar e se sensibilizar pela história do outro, desenvolvendo, a partir da Literatura, habilidades médicas empáticas, por meio de textos da literatura ficcional que tenham, ou não, médicos como protagonistas. Essas são  algumas das contribuições desse entrelaçamento entre a Medicina e as Narrativas Literárias, para a prática clínica e para o cuidado com os pacientes. 

 

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Veia bailarina. 2. ed.  São Paulo: Global, 1997.

CASTELO, José. As feridas de um leitor. 1. ed. Rio de janeiro: Bertran Brasil, 2012.

CESÁRIO, Raquel Rangel. O que a Literatura ensina à Medicina? Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP). Revista Ser Médico. Disponível em https://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Revista&id=846 . Acesso em 06/06/2022.

COETZEE, John. Homem lento. Companhia das Letras; 1. Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Medicina narrativa: o poder das histórias. Raciocínio clínico. Disponível em https://raciocinioclinico.com.br/medicina-narrativa-o-poder-das-historias/. Acesso em 06/06/2022.

SCLIAR, Moacyr. Medicina e Literatura. Faculdade de Medicina da UFMG. Belo Horizonte, 25/06/2004. Disponível em http://www.tirodeletra.com.br/ensaios/LiteraturaeMedicina.htmAcesso em 06/06/2022.

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