outubro, 2022

Humano, demasiado humano

Por Anna Cláudia Passani Ferreira

Vira e mexe, mexe e vira, há muitos anos, “a ditadura da felicidade” me atravessa de uma maneira muito particular.  Sempre quero escrever sobre. Escrevi algumas vezes. Agora, mais uma vez, depois de algum tempo, estou sendo atravessada por esse tema. Que bom!!!

Dia desses, assisti a uma Live com o filósofo francês Luc Ferry, em que ele criticou a ideia, muito presente na nossa sociedade, já há algum tempo, de que a felicidade depende, simplesmente, de seu estado interior, como querem os livros de autoajuda (nada contra esses livros), com receitas para alcançar esse suposto bem-estar permanente. Mas, nossa felicidade depende, sim, dos outros, e dos fatores externos da vida.

Precisamos passar a considerar, seriamente, como afirma Luc Ferry, que “isso é fruto da confusão entre infelicidade e doença; que a infelicidade é parte constitutiva da nossa vida, da efemeridade da vida e de seus desafios”. Na pós-modernidade, o indivíduo se voltou para si mesmo, para o cuidado de si, para o que o filósofo chamou de “individualismo narcísico”, e a felicidade passou a ser a grande busca do sujeito.

Pois é, mas o que fazer, então com essa obrigação de ser feliz 24h por dia, 7 dias por semana? É uma verdade paradoxal e nos traz sofrimento. Ter que ser feliz o tempo inteiro e ainda ter que expor a felicidade nas redes sociais, por exemplo, é um sintoma do nosso momento histórico. Preocupante!

O psicanalista Jorge Forbes, em um de seus textos, diz que “felicidade não é bem que se mereça”. Para quem quiser conferir, é só clicar:

http://jorgeforbes.com.br/felicidade-nao-e-bem-que-se-mereca-versao-completa/

O autor chama a atenção para o contrário daquilo que se pensa normalmente: “que a felicidade seria fruto dos nossos merecidos esforços. Não é, não. A felicidade, do ponto de vista psicanalítico, se dá no encontro, na surpresa, e não há esforço nenhum na surpresa.”

Assim, me  parece bem palpável a sensação de que a felicidade sempre nos parece inalcançável. Já parou para pensar que quando nos sentimos felizes, pensamos que estamos sonhando ou que houve algum engano? Resultado… crise de identidade: esse(a) sou eu? O mais triste é que a maioria das pessoas se assusta e sai correndo de medo da felicidade, exatamente pela sensação de estranheza que ela provoca. Por isso, dizer que há que se suportar ser feliz.

Entendo a “ditadura da felicidade” como uma imposição sociocultural, segundo a qual parece que é preciso sempre estar bem, não se permitindo que as pessoas fiquem mal.  Cada um pode entendê-la como algo distinto. Mas, merece atenção, reflexão e crítica a imposição de ter que ser feliz a todo custo, em meio a uma indústria da felicidade crescente e que tem se potencializado absurdamente. Disso, não podemos abrir mão.

Permita-se se sentir FELIZ! Permita-se se sentir INFELIZ!  Isso não quer dizer que você fracassou ou não como INDIVÍDUO.  São ESTADOS. E, parafraseando Friedrich Nietzsche, é “demasiado humano”.

 

Fique com meu abraço!!!

 

*Sinto que, ainda, vou voltar a falar sobre esse tema.

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